sábado, 29 de fevereiro de 2020
Um papagaio...
um papagaio
voava e chilreava
ao fim da manhã.
parecia que me dizia
está um lindo dia.
Tanka da Flor
Art: Tilen Ti
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
A vingança da porta
Era um hábito antigo que ele tinha:
Entrar dando com a porta nos batentes.
— Que te fez essa porta? a mulher vinha
E interrogava. Ele cerrando os dentes:
— Nada! traze o jantar! — Mas à noitinha
Calmava-se; feliz, os inocentes
Olhos revê da filha, a cabecinha
Lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.
Urna vez, ao tornar à casa, quando
Erguia a aldraba, o coração lhe fala:
Entra mais devagar... — Pára, hesitando...
Nisto nos gonzos range a velha porta,
Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala,
A mulher como doida e a filha morta.
Alberto da Oliveira
Cigana com criança
![]() |
Amadeo Modigliani |
Sou uma mulher
que ninguém chama pelo nome.
Hão-de nomear-me filha
do vento e dos caminhos.
Hão-de ver asas em meus dedos
quando danço.
Mas a nenhum lugar pertenço
e intrusa me sinto do futuro
adivinhado em minhas mãos.
Quando embalo o meu filho
antevejo um estranhamento
gravado em sua sina
e um brasido de fogueira em suas veias.
Acoitarei na água da retina
a linha inacabada dos seus passos.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 25
Hão-de nomear-me filha
do vento e dos caminhos.
Hão-de ver asas em meus dedos
quando danço.
Mas a nenhum lugar pertenço
e intrusa me sinto do futuro
adivinhado em minhas mãos.
Quando embalo o meu filho
antevejo um estranhamento
gravado em sua sina
e um brasido de fogueira em suas veias.
Acoitarei na água da retina
a linha inacabada dos seus passos.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 25
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